terça-feira, 15 de abril de 2008

O insône.
A madrugada já adulta ia cada vez mais caminhando para as últimas horas... e eu ali ainda perdido fixando o olhar nos encantos que a pouca luz que chegava de um poste distante desenhava no quarto. Ter insônia me faz dar mais importância aos objetos que estão ao meu redor... As telas dos computadores pareciam conversar enquanto os violões cochilavam sobre bags e mochilas de cabos e pedais. As guitarras pareciam dar cólo e carinho uma a outra. Um caos literário se espalha nos arredores da cama. Graças a viagem de meu colega de quarto a Brasília, os livros foram manipulados; trechos foram lidos e comentados em voz alta. Capítulos re-lidos de forma despretenciosa - perderam o sentido que uma leitura apaixonada havia anotado na memória. A biografia de Chet Baker está agora sob Tolstói que aperta O Sobrados e Mucambos de Gilberto Freyre comprado num sebo de rua. Os livros amontoados me lembram, sei não porque, uma cena de filme de guerra. Talvez aquelas cenas de destroços de cidades ao explorarem a destruição de casas, de lares, de ambientes tão íntimos como o meu quarto onde os livros mudam de lugar de madrugada e parecem contar de forma diferente um pedaço das histórias (ou seria estórias?) que um certo dia li, sempre tragam uma metáfora ligada ao universo literário-poético-particular e a relação das pessoas com seus livros e leituras.

Outra realidade não menos viajante...
Mais uma vez fiz chamadas para cidades espalhadas pelo país. É tão bom poder ouvir tantos sotaques diferentes num intervalo de tempo tão pequeno. Fico deixando as imagens dessas pessoas ganharem vida dentro de mim. O timbre de voz, a entonação das palavras e atenção que me dão sempre me sugerem imagens e cenas. Fico pensando que a telefonista da empresa de Salvador que me atendeu hoje deve subir num ônibus que em cerca de 40 minutos a deixa próxima ao escritório. Ela passa na padaria onde apanha sempre um café com leite, dois envelopes pequeninos de adoçante, um pão de côco ou um daqueles que vêm com doce na superfície. Em dias de chuva e que causam uma sensação de frio ela prefere pedir tapioca com manteiga ou um pãozinho na chapa. Se chama Laiana, mas acha Laianne mais legal, pois "soa mais cult". Ela não tem namorado, embora vez ou outra saia com o estagiário que trabalha no marketing da empresa e faz capoeira as terças e quintas a noite. Ela gosta da cidade caliente e envolvente que vive, mas tem muita vontade de tentar a vida em Curitiba ou Porto Alegre. "Porque são cidades onde as pessoas são educadas, ninguém joga lixo no chão e porque lá dá pra se viver a primavera, o inverno e o outono..." estações que no nordeste são sucumbidas a força do sol e às vontades do céu que nunca se ausentam por muito tempo, apenas por alguns dias.

Um comentário:

fotografia de rua disse...

adoro o jeito que escreve, Jan; seu pensamento é todo visual, cheio de detalhes...puxa quanta sensibilidade...fico feliz de ter-lhe conhecido. que presente bom.
C.