quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Femininas

Mas através de toda época patriarcal - época de mulheres franzinas o dia inteiro dentro de casa, cosendo, embalando-se na rede, tomando o ponto dos doces, gritando para as molecas, brincando com os periquitos, espiando os homens estranhos pela frincha das portas, fumando cigarro e às vezes charuto, parindo, morrendo de parto; através de toda a época patriarcal, houve mulheres, sobretudo senhoras de engenho, em quem explodiu uma energia social, e não simplesmente doméstica, maior que a do comum dos homens. Energia para administrar fazendas, como as Das. Joaquinas do Pompeu; energia para dirigir a política partidária da família, em toda uma região, como as Das. Franciscas do Rio Formoso; energia guerreira, como as das matronas pernambucanas que se distuinguiram durante a guerra contra os holandeses, não só nas duas marchas, para as Alagoas e para Bahia, pelo meio das matas e atravessando rios fundos, como Tejucupapo, onde é tradição que elas lutaram bravamente(...) Langsdorff, nos princíspios do século XIX, visitou uma fazenda no Mato Grosso, onde o homem da casa era uma mulher. Vasta matrona de cinco pés e oito polegadas, o corpo proporcionado à altura, um colar de ouro no pescoço. Mulher já de seus cinquenta anos, andava entretanto por toda a parte, a pé , a cavalo, dando as ordens aos homens com a sua voz dominadora, dirigindo engenho, as plantações, o gado, os escravos. Era uma machona. Junto dela o irmão padre é que era quase uma moça.

Gilberto Freyre
Sobrados e Mucambos

P. 209

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