sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Notas pra saudade

Nessas épocas em que costumamos nos reunir com nossas famílias, eu que vivo distante de boa parte da minha, e especialmente das pessoas mais queridas, sempre me pego tentando me consolar ao reler cartas, escrever outras e revisitar a caixinha que guardo fotos dos tempos em que meus irmãos, alguns primos e tias queridas festejaram próximos de mim essas datas de final e início de ano.

Há muitas canções especiais que falam ao peito meu de saudade. Traduzem um pouco esse sentimento que aperta o coração, dá um nó na garganta e lacrimeja os olhos.

Samba de Orly é uma dessas poucas.
Fazia tempo que não escutava algum clássico de Chico.
Nestes dias de saudade foi inevitável.

Nota sobre Samba de Orly
Por Humberto Werneck

Letra

Juntos, viram o homem pisar pela primeira vez na Lua, em julho de 1969. À distância, acompanharam o surgimento da luta armada no Brasil, o primeiro seqüestro de um embaixador estrangeiro para obter a libertação de prisioneiros políticos, o dramático esfarinhamento da esquerda brasileira em miríades de grupúsculos. Em novembro, Toquinho resolveu voltar. No último dia, foi ao apartamento de Chico e lhe mostrou um samba ainda sem letra. Só então teve coragem de contar que estava partindo. "Fiz essa música de saudade mesmo", disse, "vou embora amanhã". Era o Samba de Orly, com todo aquele clima de exílio, de impossibilidade. Toquinho conta que Chico fez na hora os versos finais:

E diz como é que anda
aquela vida à toa
e se puder me manda
uma notícia boa

Bem depois, quando estava preparando o LP Construção, Chico convidou Vinícius para ajudar na letra. Três dos versos que o poeta escreveu:

pede perdão
pela omissão
um tanto forçada

seriam podados pela censura. "Omissão" teve que virar "duração", e "um tanto forçada" deu lugar a "dessa temporada".


http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_sambadeo.htm